A Morte de Marielle Ecoa por Mudança

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por Érico Brás*

Duas semanas passaram-se da morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Enquanto a polícia mantém sigilo completo na investigação, a notícia vai perdendo espaço nas manchetes dos jornais. Outros crimes covardes contra jovens pretos da periferia são notícia passageira e pouco a pouco a rotina naturaliza a barbárie.

O Brasil é o país das Américas que mais mata defensores de direitos humanos. Mas, até agora, estávamos acostumados a ver isso acontecer em rincões remotos, em conflitos na zona rural, com lideranças indígenas e trabalhadores rurais. O assassinato de uma vereadora, negra, no Centro da segunda maior cidade do país, da Cidade Maravilhosa, ocupada pelas forças armadas, ganha outra dimensão. Se a luz antes era amarela, agora é vermelha.

Por que escolheram Marielle? Quem são os mandantes? A quem interessava a morte dela? São muitas as perguntas, mas de uma coisa não temos dúvida: foi acerteza da impunidade que fez o assassino apertar o gatilho. No Brasil, ser mulher, pobre negra e favelada é praticamente sentença de morte. Quase 80% dos jovens mortos nas periferias são negros, em idade produtiva, de 14 a 29 anos. Entre as mulheres, a mortalidade de  negras  subiu 22%, enquanto a de não-negras caiu 7,4%,entre 2005 e 2015.Na maioria das vezes, esses crimes são arquivados, sem responsabilizar os culpados. O negro quando não morre é preso. Quando não é preso, é sentenciado ao descaso.

O Brasil foi o último país a abolir a escravidão na América. E isso só foi feito em 1888 por conta da exigência dos países estrangeiros. Desde então, os negrosse mantêmà margem da sociedade, desamparados pela Justiça, fora da liderança das empresas, das universidades, da comunidade científica, das tribunas políticas…Até hoje não concluímos o processo de abolição, que apenas começou com uma assinatura no papel. Não por acaso, as periferias estão cheias de descendentes de escravos. Não por acaso são os negros e mulatos que ocupam os sinais de trânsito vendendo balas e pano de chão. O Brasil tem uma dívida com seus afrodescendentes e a morte de Marielle também grita por isso.

Movimentos pedem o esclarecimento do assassinato e a punição dos culpados,ocupando as ruas e as redes sociais, não só aqui como em vários países do mundo. Hoje, acomunidade internacional de novo pede providências ao Brasil para a repreensão de um crime covarde. Toda essa comoção mostra ao governo que violações assim não serão mais toleradas. A morte de Marielle grita por justiça, por direitos, por mudança. A morte de Marielle grita acima de tudo por inclusão!


*é ator e conselheiro
do Fundo de População das Nações Unidas, agência da ONU líder em temas de demografia, juventude e saúde sexual e reprodutiva e participa no canal no Youtube da web série “Tá Bom pra você?”