Comissão de Reparação visita terreiro invadido pela PM no Curuzu

Comissão de Reparação visita terreiro invadido pela PM no Curuzu
Foto Divulgação | Michel Chagas

Ontem (21), o terreiro Hunkpame Savalu Vodun Zo Kwe recebeu a Comissão de Reparação da Câmara de Vereadores de Salvador (CMS), no Curuzu, para dialogar sobre a invasão do templo por policiais militares, durante operação realizada no bairro quinta-feira (17).  Na ocasião, Doté Amilton Costa contou que, cerca de cinco PMs pularam o muro do terreiro, invadiram o imóvel arrombando a porta da cozinha.

Sobre a atuação policial, o vereador Suíca (PT), afirmou ao portal Bahia Notícias que “Não podemos considerar normal que o ‘olho do Estado’ trate cidadãos dessa maneira. O pai de santo disse que foi chamado de vagabundo com uma arma apontada para ele. Isso caracteriza, além de nítido afronto à cidadania, racismo institucional e intolerância religiosa”.

O vereador Silvio Humberto (PSB), acredita que a Casa Legislativa não deve se calar perante a ação, que considerou ser “completamente desproporcional”. Silvio ainda defendeu que “Cabe, sim, processo por danos morais e materiais, não podemos esquecer que o terreiro é tombado pela Lei de Preservação do Patrimônio Cultural de Salvador”, lembrou o parlamentar.

Comissão de Reparação visita terreiro invadido pela PM no CuruzuO Terreiro Hunkpame Savalu Vodun Zo Kwe, também conhecido como Vodun Zô, é da nação Jeje Savalu e foi o primeiro a ser tombado, ano passado, com base na Lei de Preservação do Patrimônio Cultural do Município de Salvador. O pedido de preservação do terreiro partiu da Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia (AFA). Entre os critérios usados para o tombamento estava questões como especulação imobiliária, dificuldade de manutenção das instalações e invasão de terreno.

O Vodun Zô tem uma área verde de 2.408 m², é o único remanescente do bairro, mantendo a tradição original dos ritos da linhagem, como o dialeto africano ewe-fon, preservado nas expressões, cânticos, rezas no cotidiano.

Comissão de Reparação visita terreiro invadido pela PM no Curuzu
Após invasão policial no Terreiro | Foto Arquivo Pessoal

A opinião do Movimento Social

Lideranças do movimento social acreditam que a truculência policial se atrela à intolerância religiosa, já que em outros espaços  a polícia não costuma conduzir suas atividades de tal forma. O movimento do povo de santo segue em alerta e em articulação a fim de que esse caso não abra precedentes para outros espaços sagrados  sejam violados em novas operações desta natureza.

Para a Yalorixá Jaciara Ribeiro, líder religiosa do Ilê Abassá de Ogum, a ocorrência da última quinta-feira é decepcionante frente às lutas por políticas públicas que os terreiros vem pautando. “Estou triste porque enquanto mulher de candomblé a 17 anos atrás vivi algo semelhante ao ter meu Terreiro invadido por intolerantes de determinado segmento religioso, que bateram com a bíblia na cabeça de minha mãe. Agora, vejo o Vodun Zô invadido pelo Estado e me encontro extremamente preocupada com esse ódio religioso em todas as instâncias”, desabafa.

A Yalorixá e ativista também faz um alerta sobre o momento de retrocessos políticos e perdas de direitos. “A gente tem Centro de Referência de Combate ao Racismo, secretarias pautando nossas questões, tantas caminhadas organizadas… Mas, temos que continuar acreditando nos voduns, encantados e no sagrado para ter forças pra seguir”, declara.

Mãe Jaciara, como também é popularmente conhecida, ainda sinaliza a urgência da unificação de esforços do Povo de Religiões de Matrizes Africanas para que haja um pedido de desculpas oficial sobre o ocorrido,  além de se buscar respostas e cobrar ações reparatórias concretas sobre os terreiros maculados pelo Estado e por vertentes de grupos intolerantes, que têm deixado o povo de santo vulnerável ao ultrapassarem os muros das “casas de santo”.

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