O genocídio do negro brasileiro, o Sharperville nosso de cada dia

Foto Reprodução

* Por Marcos Rezende

Foi através de uma resolução da ONU que o dia 21 de março virou o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial. Esse fato ocorreu quando, em 1960, na cidade de Joanesburgo – África do Sul, a polícia abriu fogo contra milhares de pessoas que faziam protesto contra a Lei do Passe, vindo a matar 69 pessoas e ferindo outras 186. À época, o passe era o documento de identificação dos negros e também dizia onde ele poderia circular.

No Brasil, mais de meio século depois do massacre de Sharpeville, o racismo que estrutura a sociedade não se configura através de porte de documento de identificação mas de formas outras. Aqui o apartheid a brasileira se revela através do racismo estrutural da sociedade brasileira, que hipocritamente insiste em gritar que “Não é Racista” (a exemplo de Ali Kamel) ao tempo que contabiliza a morte de um jovem negro a cada 23 minutos. São 63 mortes de jovens negros por dia e 23 mil mortes de jovens negros assassinados por ano. É como se a cada um ano e meio toda a população do país de Mônaco deixasse de existir. No Brasil vivemos um Sharpeville por dia.

No Brasil a cor mata. Ser preto por aqui aumenta muito o fator de risco de morte e isso não é uma questão social, é exatamente o contrário. É uma questão racial. As mazelas raciais do Brasil sempre estiveram expostas. Viver em determinados bairros e vestir determinadas roupas já servem de credencial para estar exposto a todos os tipos  de violências estatais.

Nas últimas semanas, uma mulher, negra, lésbica, vereadora e defensora dos direitos humanos foi executada em praça pública. Marielle Franco, a vereadora preta da favela, morreu, juntamente com seu companheiro de trabalho, o motorista Anderson. A perícia observou que as balas que os executaram foram de um lote vendido para a Polícia Federal e, não por coincidência, foram balas desse mesmo lote que foram utilizadas na Chacina de Osasco, que aconteceu em 2015 em São Paulo e matou 19 pessoas.

O que muita gente não fala é que quem matou Marielle foi o racismo. Muitos brancos falam e escrevem a mesma coisa que ela e (“ainda bem”), graças a sua branquitude, continuam vivos. Temos vários exemplos, inclusive no próprio Rio de Janeiro, que vive uma intervenção federal na área da Segurança Pública e onde os militares do exército ao invés de procurarem as causas da violência e se voltarem contra as elites brancas que promovem o genocídio do nosso povo, fazem exatamente igual ao que aconteceu em Sharpeville.

Seja na África do Sul, a mais de meio século atrás, no Rio de Janeiro, em São Paulo, na Bahia, ou em qualquer bairro negro do mundo, o que a população negra vive, em pleno século XXI, é o mesmo controle sobre os nossos corpos e direito de ir e vir. Aqui no Brasil, diferente de Sharpeville, não precisamos ter um passe as mãos, e sim, morar ou lutar pela garantia de direitos nas comunidades periféricas negras e se insurgir contra o seu verdadeiro genocídio.

Reafirmo que aqui no Brasil vivemos um Sharpeville por dia. Não tem ONU, não tem alternativa a vista, não tem saída.

Quiçá um dia, esses policiais militares e os militares do exército de baixa patente, que são tão negros e morrem tanto quanto os outros negros que acostumaram matar nas periferias, libertem-se e, juntamente com aqueles tantos outros negros das comunidades, percebam que eles vivem realidades muito similares, moram nos mesmos bairros, passam pelas mesmas violências, abandono, falta de direitos mais essenciais e que, libertos da escravidão mental e, inspirados pelos ideais libertários de Zumbi, enxerguem que seus algozes e inimigos são outros e que os fuzis tem melhor serventia se apontados para os verdadeiros inimigos.

*Marcos Rezende é Coordenador Geral do CEN e mestre pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Originalmente publicado no site do CEN Brasil

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