Você crê nas prisões? A lógica prisional, Rafael Braga e o feminismo negro decolonial

Estamos em face de um grande desafio global e em um momento histórico que nos parece ser decisivo para a vida na terra e para a própria experiência humana. A linguagem sagrada chamaria esse dado de apocalipse, aludindo ao fato de que o novo, ou novidade, brota desde os escombros do sistema. Algo esplêndido pode se revelar.

Na direção a uma possível plenitude não é possível mantermos padrões e tecnologias oriundas de regimes de ostracismo e violência baseados em sistêmicas opressões que se emaranham pela vida.

As inúmeras joias deixadas por muitos mestres e muitas mestras do passado e da contemporaneidade têm sido sumamente necessárias para que transcendamos a níveis de experiência social baseadas na justiça, na cura, na compaixão radical e na restauração de nossas verdadeiras conexões com tudo que existe no Todo.

A experiência feminista, em especial, vem vinculando sinergia, criatividade e ética da diversidade e da não-separatividade para desvelar a todxs um caminho para além das regras patriarcais, das estruturas sexistas dos comportamentos  misóginos.

Numa convergência fenomenal o feminismo negro e africano decolonial tem demonstrado largamente como ainda trabalhamos em nossas buscas por justiça nos valendo ainda de tecnologias oriundas do sistema colonialista que criou e reforçou a partir do regime escravocrata e da subjugação eurocêntrica sistemas que mantém intactas as estruturas de dominação como, por exemplo, as prisões.

Do feminismo asiático aprendemos acerca das monoculturas mentais que aleijam nosso potencial cerebral a ponto de utilizarmos dele o mínimo, fazendo com que nunca reflitamos sobre a ilógica de sistemas criados pelos imperialismos ocidentais ainda presentes em seus atuais estados democráticos e especialmente nos países ditos em desenvolvimento.

De qualquer forma, apenas quando nos envolvemos emocionalmente com esse saber, como quer Grada Kilomba, é que podemos de fato saber o que fazer com o saber, com o conhecimento, e assim, propor de fato mudanças políticas.

Creio que essa sinergia existe nesse dado momento, nesse momento que temos em Rafael Braga a face da perversidade colonial e racista e da ilógica de todo o sistema carcerário que se sustenta através de uma enorme indústria lucrativa e da monocultura mental que impulsiona-nos a pensar em termos ainda escravocratas.

Nesse processo chegamos a nos envolver de tal forma com os saberes do feminismo negro interseccional e decolonial que não nos resta dúvidas de que precisamos ir de encontro ao fluxo do condicionamento humano que nos faz crer de uma forma ou de outra que uma tecnologia colonial poderia servir a qualquer outro propósito senão aquele de subjugar os subalternos, os negros desse país e desse continente.

É justamente por isso que a bell hooks, um baluarte do feminismo interseccional nos convida a perguntarmo-nos: “Quem somos nós e onde queremos chegar?”. Sim, diante do grande projeto de alienação que prefiro chamar na linguagem de Kilomba e da psiquiatria de Fanon de despernonalização, precisamos nos questionar até que ponto rompemos com nosso Si-Mesmo, com nossa personalidade, com nossa história e identidade em virtude do pós-trauma da escravidão e do desastre da estrutura raciológica.

E, investigando nossas identidades, ancestralidades, histórias e subjetividades veremos que não é possível para nossas vidas negras que importam que nos mantenhamos distantes da discussão sobre encarceramento, abolicionismo penal e sistema judiciário.

Estou mais do que convicto através de ativismos como o de Angela Davis que para a construção do bem-viver e do bem-estar precisamos encarar a violência estatal institucionalizada no regime prisional.

Não é apenas por Rafael Braga, pois esse grande labor não tem como objetivo focar nas personalidades, mas é por todas as vidas negras continentais e diásporicasque foram encarceradas, se encontram encarceradas e serão encarceradas.

As vidas brancas encarceradas, portanto, não me importam nesse trabalho? A questão não é essa! Não é que os brancos encarcerados não precisem do abolicionismo e que seus irmãos livres não precisem ir de encontro contra o fluxo de condicionamento humano. A questão é que ninguém se importa com a dor negra! E, o corpo branco tem o privilegio de viver ou não a dor, já os corpos negros nascem doloridos.

Assim, diante dos escombros desse mundo e do tumultuo ruidoso de nossa época, eu clamo pela libertação de todos os cativos e cativas e desejo proclamar um jubileu, um jubileu onde todos libertos e anistiados possam buscar juntos a restauração dos males sociais, políticos e espirituais de nosso século. Que nossa justiça seja curativa, que nossa compaixão seja radical e que libertem Rafael Braga para que ele possa nos acompanhar na luta pelo desencarceramento.

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* Felipe Káyòdé é um jovem teólogo, artista interdisciplinar e psicanalista envolvido nos estudos pós-coloniais e interseccionais. Doutor em Antropologia da Religião, é um pesquisador independente que utiliza diversos textos e materiais em suas investigações e propostas criativas. Seus temas incluem especialmente as intersecções entre religião, espiritualidade, gênero, corpo, violência, traumas, raça e subjetividades. Pastor ordenado na tradição cristã reformada,  trabalha ativamente na luta antirracista e do abolicionismo penal.

contato: rochafee@hotmail.com