Mulheres negras debatem gordofobia em Salvador

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Mulheres negras debatem gordofobia em Salvador
Mulheres negras debatem gordofobia em Salvador
Foto Guido Sampaio

Ontem, mulheres gordas e negras realizaram mais um ciclo de debates do projeto Gordas em Cena, no Shopping Center Lapa.

O evento contou com as participações da advogada Laina Crisostomo (Tamo Juntas), da pedagoga Flávia Nascimento (Elekô), Adriana Santos (Vai Ter Gorda) e a dançarina Maíara Rosedal. Na ocasião as convidadas conversaram sobre infância, maternidade, corpo, política e performance e estudos de dança do ventre por mulheres gordas.

O Projeto, composto pelos coletivos Gordas Livres, Movimento Gordas da Bahia e Elekô, foi criado por Milly Costa, Danubia Kessia, Flávia Nascimento e Sandra Santos; e organizado para discutir a gordofobia estrutural de forma interseccional à realidade do que é ser gorda na sociedade dentro dos cruzamentos de identidades.

“Sabemos a importância e necessidade de falar sobre gordofobia a partir do viés negro e, inclusive, rever que em muitos espaços só se fala sobre as plus size, mulheres que de alguma já tem um perfil aceito na sociedade. Nós estamos falando sobre o Ser Gorda e não ser plus size, debatemos a mulher gorda negra dentro da sociedade, onde não temos visibilidade”, explica Milly Costa.

Mas, afinal o que é gordofobia?

Mulheres negras debatem gordofobia em Salvador“Gordofobia é a forma de opressão às pessoas com mais tecido adiposo no corpo. É a desqualificação e inferiorização dessas pessoas, baseada em critério único de que essa maior quantidade de gordura no corpo, incapacita, invalida, enfeia e emburrece essas pessoas.

 

Gordofobia é a negação da existência da pluralidade do ser humano, que pode ser ou não magro (…) Gordofobia é basear-se em especulações sobre a saúde de um individuo devido o seu corpo e, dar-lhe o titulo de doente, baseado apenas no fato do corpo dele ser gordo.

Gordofobia é a estruturação social que usa o peso do corpo, como sistema de corte em concursos públicos, em entrevistas para empresas privadas.
(…) Gordofobia é o olhar torto, que descrimina, é quando alguém se nega a ser amigo de uma pessoa porque ela é gorda, é quando uma pessoa gorda entra em uma loja e mesmo sem saber o que ela foi fazer, à atendente lhe diz que ali não tem nada para o seu tamanho. Gordofobia é quando alguém diz que prefere morrer a ser gordo…” 
(trecho do texto extraído do blog https://coletivogordaslivres.blogspot.com.br)

E é contra essas e outras formas de discriminação ao corpo gordo, que o projeto  ‘Gordas em Cena’ tem acontecido nos sábados de outubro, no shopping Center Lapa. Isso mesmo! No shopping.  Onde, segundo Flávia Nascimento, o evento tem atraído um público diversificado na composição das rodas de debate, “Precisamos discutir a questão de como os corpos fora de um padrão estabelecido pela sociedade criam impactos em nossas vidas, no shopping tem pessoas de diferentes lugares e realidades da cidade. Por aqui (no evento) têm passado evangélicos, homens, crianças, lojistas e clientes, pessoas curiosas sobre o tema”, explica.

Mulheres negras debatem gordofobia em SalvadorA blogueira, Milly Costa, também avalia que os encontros tem sido positivos por reunir pessoas diversas dentro de um shopping Center, espaço que considera totalmente hostil ao corpo gordo. “Os shoppings são um dos principais espaços de opressão de pessoas gordas porque aqui não conseguimos sentar confortavelmente nas praças de alimentação, não conseguimos acesso nas lojas nem como trabalhadora, nem como consumidora”, desabafa.

No Brasil, o corpo também virou critério subjetivo nas seleções de emprego, a pesquisa Profissionais Brasileiros – Um Panorama sobre Contratação, Demissão e Carreira, feita pela Catho,  aponta que 6,2% dos empregadores assumiram não contratar pessoas gordas.  E a discriminação não para por aí. O mundo da moda continua sendo outro terreno onde os corpos gordos são excluídos, pois mesmo com o crescimento do mercado plus size há muitos relatos de despreparo dos funcionários para o atendimento, além de nesses estabelecimentos os preços altos excluírem parte significativa dessa parcela de consumidores e consumidoras.

O Ministério da Saúde aponta que pelo menos 20% da população da capital baiana é gorda, estatística que justifica o empenho de ativistas em provocar esse debate social, onde as pessoas, gordas ou não, precisam repensar seus julgamentos e comportamentos sobre o seu corpo e o corpo do outro. Para isso, os encontros do ‘Gordas em Cena’ estão garantidos até novembro e diálogos sobre temáticas como Gordofobia e Mídia, Gordofobia e Política, Gordofobia e Nutrição estarão pautados no projeto que garante encontros agradáveis com música, poesia e dança.