OBI’EBÓ – Aquilo que não morre (2018). Um novo projeto para escurecer!

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Foto Divulgação
Danilo Cruz

Muito da grande música produzida na diáspora se converteu em novo na história da arte, justamente por ser capaz de atualizar velhos ensinamentos e formas. O reconhecimento das heranças trazidas em nossa melanina, a observação atenta da diversidade imensa que foi tirada de África, constitui, grande parte, senão a maioria do que de melhor se produziu na música do século XX.

Obi’Ebó é um novo projeto composto por grandes artistas da música baiana, são eles o rapper Besoro e os grupos AfroDendê e Opanijé. Nessa tríade de trabalhos, encontrarmos uma diversidade e uma complementaridade que nos entrega algo bastante necessário e impactante para quem busca se aprofundar nas raízes não diluídas da ancestralidade africana, musicalmente tornada aula.

A junção de um novo mc da cena soteropolitana com um band leader de amplo conhecimento percussivo e dos cantos afro, além de um dos grupos mais originais que o rap brasileiro já produziu é o cerne do trabalho do Obi’Ebó. Em 2015, o Opanijé lançou um trabalho na rua, seu primeiro disco, homônimo e elogiadíssimo Opanijé (2015), mas infelizmente pouco escutado nacionalmente.

Entendendo perfeitamente falacias de apelo a autoridade, não obstante, é importante lembrar que ninguém menos que Chuck D, do lendário grupo Public Enemy (pilar da história do rap mundial) elogiou àquela altura o trabalho dos caras. Um dos mestres do gênero musical aqui abordado entendeu como nós, que o disco de estreia do grupo baiano era e é um das coisas mais originais que o rap nacional já produziu, em termos musicais e de poética.

Afro Dendê e Opanijé | Foto Divulgação

Baseando-se no conhecimento das pautas raciais, mas, sobretudo, na vivência política e existencial dentro de sua cultura negra local e mundial, os manos Lázaro Erê, Rone DumDum e DJ Chiba D produziram um disco clássico do rap nacional. Ali, orixás eram honrados e  questões como o epistemicídio, as politicas públicas e a violência eram o alimento espiritual e politico com o qual os caras armavam suas rimas.

A produção do esquecimento, dentro da cultura hip hop atual, nos obriga a fazer esse levantamento, de modo a fazer entender que esse novo capítulo da carreira dos artistas acima mencionados não é algo “novo”. Obi’Ebó é um projeto de aprofundamento nas questões supracitadas e um passo a mais na carreira do Opanijé, do AfroDendê e do mano Besoro.

O Coletivo Obi’Ebó, inicia seus trabalhos com o lançamento da música Aquilo Que Não Morre (2018) com a produção elegante e um clipe simples e certeiro do Marcelo Santanna, AquaHertz Beats. Nesse primeiro single, podemos perceber as intenções e a força do coletivo, a vivência real de quem vive sua ancestralidade africana e consegue transpor isso para sua música e poesia. Recentemente, percebemos um crescimento nos temas “afro-ancestrais” dentro do rap nacional, e nesse sentido o Opanijé é o real precursor dessa linha.

Agora em produção coletiva que divide os mesmos afetos e concepções que os caras, Obi’Ebó largou nas encruzilhadas digitais uma “macumba” real em oferta de Exu. Orixá que entre outros signos carrega a responsabilidade de ser o mensageiro entre deuses e homens, aquele que abre e fecha caminhos, é o primeiro Orixá escolhido pelo Obi’Ebó para como manda os preceitos, abrir os trabalhos do grupo.

Escurecendo uma ontologia e uma lógica que é diametralmente oposta do simplismo platônico cristão que entende fenômenos complexos através de simples dualidades, Aquilo Que Não Morre (2018), é musicalmente uma boa aula introdutória sobre o Orixa aqui abordado em forma de Ebó musical. Tauamin Kuango (AfroDendê), Besoro, Rone DumDum e Lázaro Erê, portadores e praticantes do candomblé, conseguem mostrar através da sua arte a força e a complexidade da entidade abordada.

O vídeo que teve a produção do Marcelo Santanna, é bem simples e significativo, tendo os artistas filmados numa caminhada pela mata, com a câmera focando nas costas de cada um durante seus versos. A variação do beat que passa do tradicional boombap, traz colorações de afro-beat e flerta com o trap, serve de caminho sonoro ideal pras diferentes linhas que são aqui carregas de conhecimento vivo e força espiritual, congregando assim politica, música e espiritualidade de modo ímpar.

Uma aula, desde sempre necessária num país que não reconhece seu racismo estrutural e ao mesmo tempo e pelo mesmo motivo nega suas raízes culturais. Ao mesmo tempo, um resgate não apenas da força da tradição preta e espiritual africana, mas também de quem vem dando a cara a tapa, desde antes de exu e ser do axé se tornar signo pop.

O coletivo Obi’Ebó surge com uma beleza e uma força que é fruto e signo daquela resistência de que falavamos no começo do texto, de um povo que busca em suas raízes e no seu gênio inventivo, a força pra moldar armas capazes de combater algozes que insistem no tempo. No entanto, insistência não é o mesmo que duração, e certamente a força africana é aquilo que dura através das gerações, desde sempre.

Fiquem atentos, esse primeiro single é a expressão inicial de um projeto que pretende se tornar um disco, com todas as músicas saudando os orixás. O Coletivo Obi’Ebó nasce forte, inovador, ancestral e ao mesmo tempo novo, porque o mais velho.

“Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que só jogou hoje.”

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*Danilo Cruz
Licenciado em Filosofia, Crítico Musical e editor no Oganpazan